Alguém já viu o Bush de Mercedes-Benz? Merkel de Rolls Royce? Blair de Cadillac? Mas em seus respectivos países. Não? Pois dificilmente veremos isso.
Se houvesse uma licitação, livre concorrência para a compra dos carros oficiais desses líderes, provavelmente algum país asiático ganharia a maioria. Eles sabem disso. Mas também sabem que isso seria um golpe na auto estima de seus povos. Ai de Merkel se ousar um Hyundai em uma recepção a um Chefe de Estado em visita oficial. Isso porque o mercado é uma entidade irracional, precisa dos freios do Estado para não destruir a tudo e, conseqüentemente, a si mesmo. Livre mercado, na assepção da palavra, seria dar livre arbítrio a uma mula, ela não saberia o que fazer com isso, não tem discernimento, só instinto de sobrevivência… e algum afeto por um dono bondoso, é claro.
Agora ao Brasil. Qual o carro do Presidente da República? Não é um Democrata, nem um Joagar, nem um Miura, nem um Santa Matilde, tampouco um Gurgel. É um Holden, por aqui rebatizado como Ômega. É importado. Até a era Sarney usavam-se o bom e velho Landau, mas entrou Collor e, sem qualquer salvaguarda, incentivo ao aprimoramento ou mesmo condicionamento à parceria com os fabricantes nacionais, abriu as importações sem critérios (a ponto de carros populares terem conseguido chegar aqui). Alguns dirão "Mas isso foi óptimo! Modernizou o parque industrial brasileiro, trouxe novidades…". É verdade, até certo ponto. O facto é que enquanto a Casa Branca fez de tudo para salvar a Ford, o governo francês ídem para a Citroën, o Estado nacional virou as costas para uma indústria automobilística que, no início dos anos 1990, já se encontrava em um estágio bastante avançado de sofisticação. Não pela empresa, mas pela identidade nacional um Estado responsável privilegia (por vezes com exclusividade) sua indústria local, dando-lhe metas e estímulos para que se desenvolva a contento.
A IBAP (Indústria Brasileira de Automóveis Presidente) tinha um carro de luxo pronto e acabado, até estava negociando direitos para fabricação de um moderníssimo motor Alfa Romeo, prática comum de troca de tecnologias no mundo inteiro. Fizeram acusações de fraude e embargaram a fábrica, e o Democrata ficou só na promessa. Hoje só há um no mundo inteiro, felizmente ainda no Brasil. Era época da ditadura que, como se sabe, teve o queijo e a faca nas mãos para alavancar o país.
A Gurgel foi a que alçou vôos mais altos. Mas o presidente de então, xenólatra e com patente brasifobia, ignorou por completo a possibilidade de gerar desenvolvimento por meio da inteligência de um brasileiro; na certa acreditava que os importados o fariam. A Gurgel fechou no início dos anos 1990, quem é do ramo ou acompanha de perto o mundo dos automóveis lamenta. Seria bom para o patriotismo equilibrado do cidadão ver o Gurgel Super Mini no serviço público, como carro de entrega de super mercados e ramos diversos.
A Miura também resistiu o quanto pôde. Seus carros, extremamente sofisticados e com muita electrônica embarcada, chegaram a rivalizar em modernidade com qualquer importado de luxo. Mas era sobretaxado, como todos os outros brasileiros ainda o são, e não pôde competir com os estrangeiros.
A Puma dispensa comentários.
A Joagar foi um gol contra de JK, nos anos 1950. Hoje só resta uma picape vermelha da marca.
Não sou contra os importados, seria leviandade questionar a qualidade estrutural de um BMW, mas os nossos não deixavam (e os que restaram ainda não deixam) por menos. O desdém do governo para com as coisas nossas ainda faz nosso povo acreditar que por aqui nada se faz de bom. Os lucros que nossas fabriquetas geram ficam aqui dentro, os lucros generosos que as marcas que perdemos geravam ficavam aqui dentro, os lucros das multinacionais vão para a matriz. O que é justo. Injusto é nossa gente não ter aqui a mesma proteção que eles têm lá, porque o livre comércio chega até a porta de entrada desses países, dela para dentro há regras a se seguir e taxas a se pagar.
Hoje temos novas tentativas: Lobini, Chamonix, Americar, Óbvio!, BRM (esta uma das poucas veteranas a ainda resistir) e outras menores, que honram a tradição de robustez e confiabilidade que sempre caracterizou nossas indústrias sérias. Mas um carrinho popular com mecânica e tudo mais desenvolvidos aqui no Brasil, já não temos.
Sabe de uma coisa? Vou parar por aqui, meu teclado não é à prova d’água.
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