Ciclomotor à ar comprimido, que é comprimido pela electricidade.

Modelo MDI a ser lançado.

Recebi um e-mail de uma amiga sobre a divulgação do veículo a ar comprimido. Com boas doses de teorias da conspiração, me incentivou a tocar no assunto que há muito queria, mas não tinha um gancho.

A MDI, empresa espanhola (esta aqui) que começou toda a bagunça, tem dois ou três modelos prontos, mais dois na prancheta e um gerador eléctrico, mas não me consta que tenha vendas muito expressivas. As maioria das páginas a respeito no Brasil está parada no tempo há uns cinco anos. O que aumenta muito a teoria da conspiração entre os mais neuróticos, que sabemos serem profícuos neste início de século.

A única página actualizada a respeito que encontrei, em português, é a Ar Combustível (esta). Ao contrário da maioria, é feita com um bom grau de profissionalismo e persistência. Segundo a mesma, até o ano passado a MDI enfrentava problemas com a burocracia brasileira, que é notoriamente feita por quem nada entende do assunto que está tratando, salvo raras e felizes exceções. O desembarque de um veículo foi barrado porque o governo “entende” que se trataria de importação, e não havendo uma empresa responsável no país pela devolução do carro à Espanha, ao fim das demonstrações, ele fica lá, enquanto (alegadas) mil e quinhentas pessoas já teriam se candidatado à compra. Fora as três fábricas que já teriam sido vendidas, mas para estas há o desconto de que uma empresa desse porte demora mesmo até ficar pronta, estão dentro do prazo. A solução foi mandar uma delegação à Nice para conhecer os veículos. O site é bastante completo e muito competente no que faz, vale à pena ler e deixar seu recado lá.

Eu não gosto de procurar culpados. As empresas de petróleo realmente teriam o que temer, em um primeiro momento, mas seriam muito burras em não fornecer os insumos necessários á produção dos carros à ar comprimido. Eles são feitos de plástico, que vale muito mais do que gasolina. Seus tanques de ar são feitos de fibra de carbono, que ainda usam muito petróleo, com margens mais atraentes do que o combustível. A autonomia é limitada pelos limites naturais da compressão do ar, seria necessário um veículo grande com pouco espaço para fazer uma viagem, deixando os carrinhos da MDI mais aptos ao uso urbano. Qualquer petroleiro que tema um carro assim merece ser engolido pela concorrência. E, principalmente, o ar não se comprime sozinho.

O Veículo a ar comprimido é viável, o desing da MDI é apenas um típico exemplo da excentricidade daliniana dos espanhóis. Dá para se fazer isto em um Puminha, um bugue ou um triciclo. Existe até um ciclomotor adaptado com tanques de mergulho e compressores de ar usados como motores, rodando pela Europa. Mas a autonomia ainda é pífia e, como disse, o ar precisa ser comprimido para fazer seu serviço.

Um americano conhecido por Di Pietro bolou um motor a ar simplesmente genial, mostrado nos vídeos abaixo. É a versão a ar comprimido do genial e mal aproveitado Wankel, com seu pistão triangular rotativo. É tão simples que leigos têm dificuldades em entender porque ele funciona. Tem mais torque, mais autonomia, é ridículamente leve. Como se vê no esquema simplificado ao lado. Por que não houve divulgação? Houve. Mas lembrem-se, estamos no Brasil, só apelações de baixo ventre ou de extrema violência (humana ou climática) costumam dar audiência. As pessoas não sabem nem como funciona o motor à combustão comum, a maioria sequer se interessa, imaginem elas verem uma animação como a aqui mostrada. A maioria vai rir, achar meio besta e voltar para os “meus heróis”.

Mas asseguro, caros leitores, que no que depender de pessoas como vocês, a deficiência crônica de que sofremos não será obstáculo perene nem aos eléctricos, nem aos eólicos. A situação em que nos encontramos, de em alguns lugares já ser necessário extrair petróleo do xisto betuminoso, é irreversível. Os custos dos fósseis não se manterão baixos por muito tempo. Não somos tantos quanto a massa de manobra da mídia, mas somos suficientes para as transformações que já estão se dando e não têm volta. Quem não se adaptar, quebra.

Quanto à adaptação do ciclomotor acima, se quiseres empreitar, fique à vontade. Vá ao Youtube, digite “air powered” e uma penca de vídeos aparecerá, uns simplesmente idiotas, mas a maioria bastante didática e inspiradora. Mas advirto que vais continuar dependendo de um motor eléctrico para abastecer seus tanques. Se isto não for problema, boa sorte.

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