Como em todo eléctrico, o preço é o que mais dói.

Mais famosa pelos incêndios no Nano, que a meu ver lembra o episódio de sabotagens da GM aos carros eléctricos da Ford, a Tata está lançando oficialmente a versão eléctrica do Indica Vista. O Nano voltou a vender bem, obrigado, com a mesma carinha de Kombi para quatro pessoas. Há rumores de que ele desembarca ( ou o Indica Vista à combustão) por cá ainda neste ano ( aqui e aqui), mas ainda não temos a decisão oficial de onde seria a fábrica, se Brasil ou México… Alguma dúvida?

Voltemos ao Indica Vista eléctrico. Trata-se de um carro pequeno, para quatro passageiros, como é comum na Europa. O preço sugerido é de vinte e quatro mil Euros, mais de cinqüenta mil reais. O que o faz valer isto?  O carro é muito bem construído, tem acabamento simples, mas impecável e utiliza baterias de última geração; superpolímero de lítio.

Interior honesto, mas muito agradável.

Apresentado oficialmente no salão de Genebra, ficou quase que apagado não só pelo veterano Nano, mas também pelo Pixel, conceito do virtual substituto do carro mais barato do mundo, que é  feito em uma democracia. Na hora dos testes com jornalistas, o Indica Vista foi esnobado pela maioria e a fila para teste de direção ficou pequena. O brasileiro Claudio de Souza (aqui) não teve este preconceito. Se surpreendeu favoravelmente, enquanto a maioria se preocupava em despejar centenas de cavalos-vapor no asfalto em super esportivos eléctricos. Michael Boxwell, do Owning Electric Car (this) também aprovou o carrinho, mesmo acostumado a padrões mais altos de acabamento e performance do que o brasileiro. Eu também gostei do acabamento, as photographias enormes que já vi deram bons e favoráveis detalhes a respeito.

A autonomia “em condições normais”, segundo a Tata, é de 160km, mas ele foi a quase 260km em condições reais. O que será que a fábrica usou como estrada para os testes, um terreno off-road? As baterias comportam 26,5kwh de carga e têm um controlador com um design interessante, é aletado. Uma providência simples e barata, que passa desapercebida pela maioria dos projectos, mas garante temperaturas mais baixas e eficiência maior no sistema.

A máxima de 114km/h é a mesma do nosso Fusca 1300 à gasolina, pois com etanol ele beira os 120km/h. Alguém anda (ou deveria andar) a esta velocidade em perímetro urbano? Mesmo em nossas rodovias ele seria multado por excesso de velocidade. Faz de 0 a 60km/h em nove segundos com seus 15kgfm e 73cv de pico. A potência média deve ficar nos 36cv, no máximo. mesmo assim me parece que a velocidade máxima foi limitada electronicamente, pois esta cavalaria seria suficiente para não menos que 130km/h. Mas vela lembrar sempre, baterias de lítio são sensíveis, podem ser danificadas com facilidade.

O jornalista o achou parecido com o Citröen C3, o vejo mais parecido com um Hyundai de desenho limpo e traseira de Punto. mas está longe de ser um carro feio. A versão bruta e crua apresentada não tem assistência para a direção, mesmo assim não chega a ser pesada, só um pouco dura em casos extremos. A Tata diz que é bom para as moças… Minha irmã mal consegue virar o guidão de uma bicicleta cargueira, então imagino que moças mais robustas ou menos sedentárias tenham sido agraciadas. Para quem tiver curiosidade em conhecer o Indica Vista convencional, é este aqui.

este vídeo curto mostra a facilidade de manobra, mesmo sem assistência na direção:

A Tata (aqui) que hoje é dona da Land Rover e da Jaguar, não cita o Brasil como destino do Vista EV. Como todos os outros fabricantes, o descaso do governo brasileiro não só para com a mobilidade eléctrica, mas principalmente para com a infraestrutura, afasta as intenções da Tata. Não, não é verdade aquela conversa de que uma frota de plug-ins arruinaria nosso sistema eléctrico, ele já está arruinado pelo excesso de burocracia e falta de interesse estatais. Basta fazer as contas de quanto um eléctrico consome em média por dia, multiplicar pelo número razoável que lhe vier á cabeça e obterás o verdadeiro aumento de consumo. Nenhum carro em uso normal consome mais do que 10kwh por dia, se não tiver frenagem regenerativa. O aumento da produção industrial sem o incremento da oferta é que ameaça a distribuição de energia. O temor é que em um futuro próximo, a precariedade da manutenção (que eu vejo todos os dias) e lentidão dos investimentos comprometam seriamente o fornecimento, servindo de desculpa para aumentar astronomicamente o preço. Acreditem, os apagões que sofremos agora serão café pequeno, se o brasileiro não parar de assistir e ler bobagem e passar a se interessar pelo que faz diferença para o país.

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