O quê?? carona de uma mulher??!!! Só aceito carona de macho…

Caso não tenham notado, a bela moça (que hoje jaz) está no comando do carro. Naquela época ainda não existia volante, era tudo na base de alavancas e guidões, para esterçar as rodas. E como no caso, algumas vezes o motorista ficava no banco de trás, de frente para os passageiros do banco da frente. Embora hoje soe estranho, a solução poupa muito espaço, permite que as pernas fiquem mais livres e reduz um pouco o tamanho do veículo. Na época, em que os chassis eram fundidos, um metro a menos era uma economia imensa de material, energia e mão de obra. Podendo papear sem tirar as vistas da estrada, e não precisando se arriscar com as perigosas manivelas de ignição, o carro eléctrico caiu no gosto das mulheres. Pois aqui vem o caso, o motivo do título.

Em fins do século XIX, a indústria do petróleo era incipiente e ainda muito fraca para dar pitacos. A maioria dos carros funcionava com gás ou electricidade, dividindo espaço com os à vapor e os de combustão interna. A maioria dos eléctricos não excedia 4okm/h, o que não era desvantagem, a maioria dos carros não chegava a 35km/h na virada do século passado. Assim o consumo de petróleo era mínimo, a maior parte utilizada como insumo e não como combustível. Neste cenário os carros eléctricos prosperavam, chegando a ser mais de um terço (segundo maioria das fontes) da insignificante frota mundial. A vantagem da combustão interna é a imensa densidade energética dos combustíveis líquidos, especialmente os hidrocarbonetos, com isso os carros à gasolina tinham uma grande autonomia. Mas como a velocidade era relativamente baixa, as estradas precárias e a maioria das pessoas preferia o trem para viajar, esta vantagem ficava bastante reduzida, especialmente porque a fonte de energia dos eléctricos é entregue continuamente em casa, já o petróleo era preciso buscar e na época a filtragem não era lá essas coisas, carros à combustão parados à beira da estrada eram uma visão comum.

Os carros que dão aos antigos a fama de inquebráveis foram fabricados entre meados dos anos vinte e início dos anos sessenta. Antes a usinagem era precária e favorecia o desgaste prematuro, depois a necessidade de economia e segurança foi usada como desculpa para fazer tudo descartável.

Tudo ia bem até a primeira grande guerra mundial eclodir. A vantagem da grande autonomia em pequenos volumes fez do petróleo a fonte de energia dos carros militares. Vários soldados eram tirados de combate pela manivela, sem precisar levar um tiro, como acontecia na vida civil. O problema é que a associação (maldita) com a guerra deu ao motor de combustão interna a fama de “motor de macho”. Na verdade os carros eléctricos enfrentavam muito mais adversidades sem apresentar defeitos do que qualquer carro a combustão da época, mas o facto de as moças preferirem algo que não as ameaçasse de morte, apenas por se atreverem a dar a partida, fez os homens olharem com desdém aqueles carros silenciosos e confiáveis. A guerra só fez piorar tudo.

O resto vocês podem deduzir. Quem tinha o dinheiro na época ainda era o marido. Se a mulher conseguia um trocado que fosse, o marmanjo se apossava e a sociedade machista o apoiava, mesmo que torrasse tudo com bebedeiras e prostitutas e a família passasse fome, como ainda ocorre em muitas partes do mundo e do Brasil, onde os “dotô deputado difendi as famía das senvergonhice de Sumpaulo”. A indústria do petróleo não precisou gastar um centavo sequer, simplesmente fez sua propaganda usual, exaltando as qualidades energéticas da gasolina, sem tocar no assunto. Em pouco tempo então o petróleo ganhou a força que manteve por quase um século, e só neste está decaindo.

Interessante que quando a Cadillac lançou a partida eléctrica, ninguém chamou de boiola o dono de um Cadillac! Certamente porque o motor eléctrico “estava no seu devido lugar”, como as mulheres da época. A velha e nojenta misoginia romana que perdura até hoje. Ou vocês pensam que é passado? Nos anos noventa a campanha difamatória contra o carro eléctrico incluia isso, dizer que não é carro de homem, que macho dirige picape e passa por cima dos outros. Novamente não foi gasto um centavo sequer, só foi preciso reacender a fagulha do machismo que todo idiota imaturo, que coloca a púbis acima de tudo, mantém viva.

O preço que pagamos foi caro. Com sua utilidade limitada, por décadas, a dar partida e acender luzes, a bateria praticamente parou no tempo. Por quase cem anos só mudaram o rótulo e adereços da carcaça, sem nenhum investimento sério em sua capacidade de descarga e recarga. Continuou cara, pesada e volumosa. Hoje corremos contra o tempo. Muita gente nem deu importância ás notícias, mas já há companhias extraindo petróleo do xisto betuminoso. O processo é bem mais caro, perigoso e poluente do que a extração do petróleo bruto, que em si já é muito poluente desde a fonte. Os canadenses estão se mordendo por terem eleito um governo reacionário. Para quem não se lembra e torce o nariz, este governo se voltou contra nós, brasileiros, porque os aviões da Embraer estavam, aliás, ainda estão dando uma surra nos Bombardier, tanto em qualidade quanto em vendas. Foi por isso que retaliaram a nossa carne. Desculpa esfarrapada de tradicionalista radical. O machismo vem no bagageiro, junto com a vontade de revogar o fim da escravidão negra. Para quem não entendeu, as últimas fronteiras do petróleo já eram, por isso as prtrolíferas passaram a investir também em energias renováveis, não foi por consciência ecológica que seus egos aborrescentes não têm.

Um dos fabricantes de carros eléctricos mais populares da época era a Detroit Electrics. Seus carros podiam rodar cerca de 100km a mais ou menos 46km/h. Vídeos aqui, aqui e aqui.

A Baker Electrics fabricava carros mais lentos, mas com maior raio de ação. Rodavam mais de 160km a 40km/h. Um vídeo (aqui) a respeito. Mais estreitos do que os Detroit, permitiam uma certa intimidade entre os ocupantes, e o machista tremia de novo.

A Folding Electric fez dois carrinhos interessantes, um deles que na época seria impossível de se fazer à combustão, pela precariedade das mangueiras (aqui).

A BBC fez um bom artigo, como sempre a respeito aqui.

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