Longe de ser pessimista, é improvável que se realize.

A iCon EV quer dar uma de Itamar Franco (aqui, aqui, aqui ) e ressuscitar o Fusca. Não aquela papagaiada para entretenimento do Beetle, mas o Fusca velho de (literalmente) guerra.

A idéia é comprar o ferramental que ainda existe no México e montá-lo nos Estados Unidos sob o nome de Type B. A empresa afirma que gastaria uma pechincha para relançá-lo, apenas U$ 1 milhão, cerca de um milésimo do que normalmente custa o desenvolvimento completo de um carro, da idealização ao lançamento.

O preço previsto é de US$ 20 mil, o que também é uma pechincha em se tratando de uma empresa de baixo volume de produção, ainda mais para um veículo eléctrico.

Só que a pequena iCon EV não tem essa liquidez para investimento imediato. Problema menor, visto que mesmo com a quebra de muitos bancos (só lamento pelos funcionários, os especuladores quero que se virem) a oferta de financiamentos ainda é boa na América; sem ranço, este é o nome daquele país: América. E a empresa ainda pode contar com a legião de fãs que o Fusca tem na América do Norte, com uma campanha de apelo ao público… Estratégia perigosa que custou caro à IBAP e à Gurgel, mas com o profissionalismo americano pode ser que dê certo… pode ser…

O PROBLEMA de verdade está na Volkswagen. mesmo levando em consideração a notícia ser recente, o silêncio da montadora é um recado claro para quem conhece um pouco os alemães, ainda mais porque os ianques já disseram de cara e sem prudência, que o fusca seria só o primeiro, que a idéia é voltar a produzir todos os clássicos VW e Porsche (karmann Ghia, 356 e 550 Spyder) todos com tração eléctrica.

Vamos fazer as contas? Vamos; Por vinte mil dólares, levando em conta que e produção do Fusca é cara e demorada pelos métodos até então empregados, no máximo oito mil podem ser dedicados às baterias de íon ou polímero de lítio, para que ele tenha uma boa autonomia e ainda possa levar quatro mais um e sua bagagem. Conseguindo negociar bem, e operando com uma margem de lucro entre pequena e razoável, o consumidor final pagaria não menos do que duzentos e cinqüenta dólares por cavalo-vapor efetivo, o que dá cerca de 30cv para mover o carro durante uma hora. Isto dá, aproximadamente, pela aerodinâmica precária do Fusca, não mais que 120km/h e 170km de autonomia a cem por hora, no máximo. Se utilizarem hubmotors de alta eficiência, pode-se pensar em 125km/h e 190km a cem por hora, já que a idéia é deixar o aspecto original com seu alto 0,48 de Cx. Talvez uma versão “sporting” use saias, rodas lisas e chegue a 0,40, mas isto é tão improvável quanto a licença da VW.

Mas, será que haveria realmente mercado para o velho Fusca, ainda que com motorização limpa? Sim, há. Quem compra o Beetle, está comprando um Golf bastante piorado, e pagando praticamente o mesmo preço; ou seja, o apelo do carisma e do saudosismo do Fusca ainda funciona a pleno vapor. Mesmo com mudança de matriz energética, o Type B continuaria sendo o panzer civil, com seu destemor por buracos, atoleiros, uso prolongado, alguns abusos e tudo mais. No fim das contas, um carro muito mais prático e útil do que o Golf gordo.

Para o mercado externo, que tem concorrência brava, os cerca de RS 34 mil pretendidos pelo Fusca eléctrico são salgados, mas dentro do razoável para um plug-in puro com as características de desempenho e autonomia que especulei. Os equipamentos de conveniência e segurança não seriam difíceis de se instalar, são o de menos. Por aqui ele não sairia por menos de setenta mil reais.

Se eu considero improvável o êxito do projecto? Sim, considero. Impossível não, mas bastante improvável, se a iCon teimar em manter a identidade de Fusca, com toda a aparência original sem tirar nem por. Se a VW decidiu que não merecemos o 1303, nem como versão de luxo top de linha somente sob encomenda, na época em que o Fusca estava vendendo mil unidades por dia no Brasil, a probabilidade de licenciar seus clássicos beira a fantasia. O que é uma pena, pois seria o único motivo para eu voltar a colocar os pés em uma concessionária VW e fazer uma dívida, sem a aversão que tenho pela marca.

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