Carrão e ecologia, tudo a ver sim senhor!

Muita gente não entende a razão da existência dos híbridos, há mesmo os mais fundamentalistas, que pregam a passagem directa do carro à combustão para o eléctrico puro; de preferência para ontem.

Eu nunca gostei de radicalismos e aprendi que o que se conquista pela força, só se mantém pela força. A força um dia acaba.

Os veículos híbridos não são apenas um facilitador da passagem da sociedade térmica para a voltaica, são bem mais um modo eficaz de viabilizar esta transição. Não, não existe um complô dos fabricantes de autopeças para retardar a hegemonia do todo eléctrico, e se fizessem se queimariam bonitinho. Ao contrário de dez anos atrás, privacidade e sigilo já não são garantidos nem da Coréia do Norte, quanto mais no mundo relativamente livre. Os próprios amantes de um bom ronco, de fuçar o comando de válvulas e extravasar o estresse na manutenção de um motor, estão prolongando a vida das máquinas térmicas.

Vamos a alguns factos; Para quem se dispuser a gastar uma quantia razoável, sem ser excessiva, e quiser rodar por uns dez ou quinze minutos em velocidade máxima, um esportivo eléctrico puro-sangue dá conta do recado. Utilizam-se uns cinqüenta cavalos (já descontadas perdas de transmissão e funcionamento) das melhores baterias, com esta potência girando cada motorroda, e um kit car do AC Cobra passa fácil dos 250km/h, com uma aceleração absurda e uma arrancada de dar medo mesmo a pilotos experientes. Em uso normal ele rodaria uns quatrocentos e cinqüenta quilômetros sem recarga. Lembrando que é um veículo de razoável aerodinâmica e pouca área frontal. Contudo o carro não sairia por menos de R$ 200.000,00; para uso próprio, se produzir para venda os impostos comeriam sua parte, e Deus sabe quanto custaria.

Para uso cotidiano, pacato, um Fiesta Sedan não precisa de mais do que trinta cavalos nas rodas traseiras. Uma conversão muito bem feita sairia por volta de trinta mil reais. Fora o preço do carro. Não passaria de 140km/h, mas rodaria tranqüilo por 250 ou 300km sem recarga nem regeneração. O carro todo sairia por quase setenta mil reais, mas se for tentar fazer para vender, já sabe, né. O considerável banco de baterias, mais controladores, recarrregador e hub motors, acresceriam quase trezentos quilos, que seriam anulados pela retirada da mecânica, do tanque, forração acústica e escape, de que não precisará mais.

Mas quem disse que o ser humano é puramente racional? A julgar pela nossa história, de racionais não temos absolutamente nada, nada além da presunção. Além de a razão não ser tudo em uma pessoa, alguns têm necessidades que um eléctrico puro (que não custe uma fortuna e pese menos de duas toneladas) não supre a contento. Eu conheço pessoalmente gente que roda o dia inteiro, levando gente, tralhas, subindo e descendo morros, tendo que acelerar, pegar estrada, via expressa, et cétera. Enfim, gente que se torna logo cliente preferencial de um posto de combustíveis. É gente que justifica a posse de um automóvel, ainda que seja uma banheira americana.

Os amantes de um ronco encorpado gostam de comparar o som de um motor bem regulado a uma música. Quem gosta de dirigir, de pegar o carro para uma viagem de vez em quando, tem no motor à combustão um companheiro quando o carona falta. Reduzir e acelerar para uma ultrapassagem dá aos nossos amigos a noção dos limites do carro.

Já vi antigomobilista quase chorar, com sentimento sincero, pelos ataques de ecoxaropes antropophobos, que gostariam de ver a humanidade riscada do mapa; deveriam começar consigo, para dar o exemplo. Esses amigos antigomobilistas alegam que só tiram seus carros da garagem muito de vez em quando, que os mantém muito bem regulados, que usam a melhor gasolina e o melhor aditivo para reduzir as emissões. É gente que gosta de carros, mas coloca as pessoas acima das máquinas e mesmo assim é desrespeitada em comentários levianos, de patetas que não sabem fazer contas e condenam o uso de um Charger RT em um fim de semana.

Este blog tem espaço para ecologia, não para ecochatices. Nem vacas vi vem só de ração, um pouco de emoção e carinho aumenta sua produtividade. Então foco agora umas considerações sobre o híbrido e seu público.

Os híbridos estão em fase de deslumbramento, como eram os carros flex até a Fiat dar fim à farra. Ainda cobra-se por ele bem mais do que pelo equivalente só à combustão. A maioria dos híbridos não roda mais do que uma hora na estrada no modo eléctrico, de onde vocês podem deduzir que têm (comparativamente) poucas baterias tracionárias. São elas o maior ônus de um eléctrico. Em escala industrial, por dez ou quinze mil reais a mais já seria razoável tirar um carro médio híbrido da concessionária, como o Fiesta do exemplo. Logo a poeira assenta e o improviso de algumas adaptações dá lugar a projectos específicos, então teremos híbridos a preços justos.

Um híbrido  de motorroda precisa de menos potência do que um veículo com caixa de marchas, e muito menos do que um com 4X4 e reduzida. Um Fusquinha 1300 à etanol convertido para híbrido paralelo, faria o Fusca Itamar comer poeira. Um Itamar á etanol híbrido, sem nenhuma modificação no motor, beberia menos do que o 1300 à gasolina e andaria junto com qualquer popular moderno; mas na saída do sinal deixaria todo mundo para trás, com uma conversão financeiramente factível para cidadãos comuns de classe média.

Em uso urbano cotidiano, funcionaria virtualmente só com o banco de baterias, que não precisaria de mais do que 20cv líquidos de capacidade instalada. Rodaria por não mais do que 125km na estrada, a 100km/h, mas a esta autonomia se somaria os 13km/l que ele faria com um litro de etanol. Rodaria bem mais de 600km sem reabastecer, quando o original não chega a 500km. Como o uso urbano, com a imensa variação de velocidades, seus congestionamentos, paradas em sinais e tudo mais, é o grande vilão das emissões automotivas, teríamos aqui o melhor possível de dois mundos. Eléctrico puro  para uso urbano, e à combustão com transmissão por gerador e hub motors na estrada. O custo de manutenção de um Fusca original já é baixo, imaginem híbrido. Ah, sim, ainda haveria o benefício do desempenho extra sem alteração no motor, já que o modo de transmissão não tem restrições legais.

Infelizmente nossa legislação pré-cambriana e totalmente leiga em automobilia, não permite o uso de motores de ciclo diesel em veículos de passeio, salvo raras exceções, como apreensões da receita federal e carros de embaixadas. Um bom turbodiesel híbrido, poderia rodar mais quilômetros por litro do que uma motocicleta média comum. O Mille (bem guiado) faz 23km/l de gasolina, imaginem um turbodiesel de três cilindros e hub motors! 50km/l não seria uma marca muito difícil de alcançar. Custaria bem mais, mas temos gente disposta a pagar por isso. Entrando novamente na psicologia, temos muita gente que é encantada com a eficiência térmica e precocidade dinâmica dos motores diesel, e sonham com um Brasil onde o biodiesel será produzido com seriedade e profissionalismo. É um sonho bem mais racional do que pregar a extinção da humanidade, sejamos francos! Racional demais para um ministro que pensa que proteger a indústria nacional é hipertaxar o producto importado, se esquecendo que os outros países têm o direito de retaliar na mesma moeda.

Por tudo isso o público dos híbridos, como o belo Chevy Volt e o indecente Fisker Karma, são a aposta mais acertada e eficaz para a popularização da tração por baterias, com conseqüente redução das emissões. Já publiquei aqui textos sobre kits nacionais para conversão combustão-eléctrico, a valorização dos automobilistas (e respeito pelos suas pessoas) é o meio mais eficaz para impulsionar o barateamento dos mesmos e aparição de kits híbridos, bem mais adequados ao uso em veículos de frota (viaturas policiais, por exemplo) e táxis. Até alguns fórmula1, usando o kers, são híbridos momentâneos. Até a Ferrari, ainda que sob pressão, está testando híbridos para futuro breve. O ronco ferrarista se casa bem com a força de arranque de um híbrido, não acham?

Eu não me dou ao trabalho de vir aqui e escrever para que automóveis leiam, eu escrevo para pessoas lerem. O respeito às pessoas é um dos meus norteadores, e falo sobre carro porque é um dos melhores servos que um adulto são pode ter. Entre punir o uso de uma boa ferramenta como essa, e tentar ajudar a educar seu dono, escolho a segunda opção.

Aliás, existe um rapazinho chamado Neil Young (conhecem?) que converteu seu lindo Lincoln 1959 para híbrido. Eu sempre gostei dele como cantor, agora tenho um bom motivo a mais. eis aqui o website que ele montou pra divulgar sua obra de arte, o LincVolt, como o carro ficou conhecido. Se gostar e tiver um Landau caindo aos pedaços por aí, pode tentar fazer o mesmo.

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